
Revista da Madeira nº 64 - Ano 11 - maio 2002
Estruturas
- Reforço de estruturas de madeira com fibra de vidro e com fibra de
carbono
O uso da madeira na construção civil brasileira se limita a
soluções de problemas relacionados a pequenas coberturas residenciais,
cimbramentos (para estruturas de concreto armado e protendido), armazenamento
(silos verticais e horizontais), benfeitorias rurais, entre outros. A falta
de projetos específicos, desenvolvidos por profissionais habilitados
e executados por carpinteiros pouco qualificados, incentiva a formação
de uma mentalidade distorcida por parte dos usuários.
Dentro deste contexto e com o objetivo de ampliar o uso da madeira como material
estrutural, pesquisadores do Laboratório de Madeiras e Estruturas de
Madeiras - LaMEM da Escola de Engenharia de São Carlos - EESC - USP
estão desenvolvendo novas tecnologias que permitam a utilização
racional da madeira, tanto nativa quanto de reflorestamento, tornando esse
material uma ótima solução para o emprego em estruturas,
sejam elas de pequeno ou grande porte. A mais nova alternativa que vem sendo
estudada para melhorar as propriedades mecânicas de elementos estruturais
de madeira são as fibras reforçadas com polímeros (FRP).
Por apresentar alta resistência, baixo peso e facilidade em associar
a outros materiais as (FRP) estão sendo utilizadas nas indústrias
aeroespaciais, automotivas e de equipamentos esportivos nos últimos
cinqüenta anos.
Dentre estas fibras as que vêm demonstrando melhor eficiência
em reforço e recuperação de estruturas de madeira são
os tecidos de fibra de vidro e de fibra de carbono.
O emprego das respectivas fibras deve ser feito em conjunto com algum tipo
de adesivo, formando, a partir da combinação de dois materiais,
um compósito com propriedades superiores às destes materiais.
As fibras são responsáveis pela resistência do compósito,
e o adesivo as une, sendo responsável pela transmissão dos esforços
entre as fibras e o material reforçado. Entre os adesivos mais utilizados
na laminação destes tecidos podem ser destacadas as resinas
a base de epóxi, poliéster e viníl.
Atualmente as FRP vêm sendo estudadas, como material para adequar estruturas
de madeira, de concreto e de aço, para novos usos, com a finalidade
de cumprir normas não atendidas no projeto (ex.: aumento de sobrecarga),
e em reparos devidos a acidentes, envelhecimento, ataques químicos
e erros de cálculo estrutural.
O bom desempenho do reforço de fibras reforçadas com polímeros
(FRP), está diretamente ligado ao processo de laminação
utilizado. Para a execução do reforço em estruturas de
madeira deve-se realizar a laminação manual, onde a resina é
aplicada diretamente sobre a superfície a ser reforçada e também
sobre o respectivo tecido. Como produto final obtém-se um material
laminado (fibra + resina).
A análise experimental, conduzida pelo Laboratório de Madeiras
e Estruturas de Madeira/LaMEM do Departamento de Engenharia de Estruturas
da Escola de Engenharia de São Carlos/ EESC-USP, consistiu na execução
e ensaio de 5 vigas de madeira da espécie Pinus Caribea reforçadas
com duas camadas de fibra de carbono, seis camadas de fibra de vidro e vinte
camadas de fibra de vidro.
As deformações específicas na madeira e na lâmina
de reforço, na seção central de cada viga foram medidas
por extensômetros elétricos. Os deslocamentos verticais foram
medidos com relógios comparadores, com precisão de 0,01 mm,
na seção central da peça.
Os resultados obtidos nos ensaios demonstram o bom desempenho desta técnica
de reforço, evidenciado pelo aumento da resistência e rigidez
das vigas reforçadas.Para vigas reforçadas com duas camadas
de fibra de carbono ou com seis camadas de fibra de vidro o aumento da rigidez
à flexão (EI) foi de aproximadamente 35%. Já para a viga
reforçada com 20 camadas de fibra de vidro o aumento da rigidez foi
de aproximadamente 60%.
O aumento da rigidez a flexão é proporcional ao aumento do número
de camadas de fibras. O uso de três camadas do tecido de fibra de vidro
equivale ao uso de uma camada do tecido de fibra de carbono. O emprego do
reforço de fibra propicia que a ruptura ocorra na presença de
grandes deslocamentos verticais.
Para as vigas reforçadas, apesar do esmagamento das fibras superiores
por compressão, observa-se aumento na capacidade de carga da viga até
o colapso, que se inicia com a ruptura por tração na parte inferior
da madeira.
Com relação ao emprego de fibra de carbono e de fibra de vidro
em reforço de estruturas de madeira, cabe ao projetista avaliar a relação
custo beneficio da técnica em questão, em alguns casos torna-se
mais vantajoso realizar o reforço e a recuperação da
estrutura ao invés de substituir os elementos degradados.
A grande vantagem do tecido de fibra de vidro em relação ao
tecido de fibra de carbono é exatamente seu baixo custo. Para a realização
de um reforço de com seis camadas de fibra de vidro e largura de 6
cm, o custo por metro linear, incluindo mão-de-obra, é R$ 12,00.
Os tecidos unidirecionais de fibra de vidro e de fibra de carbono vêm
apresentando resultados positivos em reforço de elementos estruturais
de madeira. Cabe salientar que a correta aplicação de tecidos
de fibras reforçadas com polímeros, garante o bom desempenho
do sistema estrutural reforçado. O uso das fibras proporcionou um incremento
nas propriedades mecânicas de resistência e rigidez da madeira.
Apesar do tecido de fibra de vidro possuir propriedades mecânicas inferiores
às do tecido de fibra de carbono, resultados significativos de aumento
de resistência e rigidez são conseguidos com o uso de um número
maior de camadas de fibras. Tendo em vista o seu menor custo, em relação
à fibra de carbono, a sua utilização parece ser mais
indicada.
Através dos resultados apresentados pode-se concluir que a utilização
de tecido unidirecional de fibra de carbono e de fibra de vidro reforçando
vigas de madeira proporciona a obtenção de bons resultados de
ganho na capacidade de carga e no deslocamento vertical da viga. Além
disso, este reforço impede a ocorrência de ruptura frágil
da madeira por tração. Dependendo do número de camadas
utilizado, a forma de ruptura é por compressão das fibras superiores
na madeira, o que evita a ocorrência de colapso frágil da estrutura.
Pode-se concluir pela viabilidade de aplicação das fibras de
vidro no reforço e na recuperação de vigas de madeira.
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